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Tratamento da Hipersensibilidade Dentinária

Tratamento da Hipersensibilidade Dentinária

Quem nunca teve problemas para tratar a hipersensibilidade dentinária? Eu considero um dos problemas mais difícies no dia a dia do dentista. Que tal descomplicarmos para ter bons resultados? Para falar sobre esse assunto, nada melhor que meu querido amigo, Prof. Paulo Vinícius Soares e seus orientados Paola Gomes de Souza, Igor Oliveiros Cardoso e Alexia da Mata Galvão, na Universidade Federal de Uberlândia! Obrigada por esse post!!

Tratamento da Hipersensibilidade Dentinária

Paulo Vinícius Soares, Paola Gomes de Souza, Igor Oliveiros Cardoso e Alexia da Mata Galvão | Universidade Federal de Uberlândia-MG.

Olá pessoal! Somos do grupo de pesquisa LCNC (Lesões Cervicais não Cariosas) da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Uberlandia-MG. Este grupo foi fundado em 2008 pelo então coordenador Prof. Dr. Paulo Vinícius Soares. Desde então fazemos pesquisas clínicas, laboratoriais e epidemiológicas sobre uma doença muito comun no dia a dia, mas ainda pouco compreendida pela Odontologia: a Hipersensibilidade Dentinária Cervical associada ou não a Lesões Cervicais não Cariosas e Recessão Gengival. Atualmente somos 25 membros, além de parceiros em outras Instituições do país e no exterior.

Quantos pacientes em seu consultório queixam-se de hipersensibilidade dentinária (HD) em um único dia de trabalho? Provavelmente muitos, pois a gama de prevalência dessa condição é consideravelmente alta, afetando todas as faixas etárias em ambos os sexos. Mas a realidade é que a maioria dos cirurgiões dentistas não estão preparados para tratar a HD. Isso mesmo, eu disse TRATAR! Quando estamos com alguma doença de origem bacteriana, com dores e febre, tomamos antibiótico para tratar essa doença, antitérmicos e analgésicos apenas para controlar os sintomas. Então porque quando o paciente está com HD é diferente? Nós tentamos controlar os sintomas (dor) e não remover os fatores etiológicos, o que realmente causa a disfunção. Controlar os sintomas NÃO é tratar! Depois de retirado ou controlado os fatores etiológicos, consequentemente os sintomas irão regredir ou pelo menos parar de progredir, e ai sim podemos intervir de forma adequada e mais efetiva na queixa dos nossos pacientes.

A abordagem que devemos ter vai muito além de sugerir ao paciente comprar dentifrícios, que se dizem dessensibilizantes, para diminuir a dor de uma parcela desses, tornando-os “dependente” desta pasta todos os dias, até que devido a não remoção dos fatores etiológicos a disfunção progrida e não tenha mais efeito. Sem mencionar os diversos casos em que inicialmente não se observa melhora com uso destas pastas. Conhecer os fatores etiológicos, saber como diagnosticá-los, conhecer a forma de tratamento adequado para cada caso é fundamental para obter sucesso e longevidade no controle da HD.

A etiologia da HD é multifatorial, envolvendo pelo menos dois fatores etiológicos dos apresentados a seguir: tensão, por meio de hábitos parafuncionais; oclusão traumática; fricção por atrito ou por abrasão; e biocorrosão, que é a degradação química, bioquímica e eletroquímica, provocada por ácidos de origem intrínseca e extrínseca.

A teoria mais aceita para explicar o mecanismo da HD é a hidrodinâmica. De acordo com ela, quando os túbulos dentinários estiverem expostos na cavidade bucal e sofrerem algum tipo de estímulo externo, ocorrerá a movimentação do fluido no interior do túbulo dentinário, tanto em direção à polpa quanto em sentido contrário, conforme se dá a contração ou a dilatação do fluido, que levará a excitação dos receptores responsáveis pelo estimulo doloroso, causando assim a dor da HD.

Tomando como base a teoria hidrodinâmica que norteia a explicação desse processo doloroso, o bloqueio da propagação dos estímulos são aliados no tratamento da HD, tanto por método químico (mecanismo neural), físico (mecanismo obliterador) e misto (mecanismo neural e obliterador). Considerando isso, os agentes que podem ser utilizados no tratamento de hipersensibildade da dentina podem ser classificados como: neurais, os quais a supersaturação de potássio na superfície do dente promove uma despolarização da membrana das fibras nervosas e impede a ocorrência de uma repolarização, na tentativa de inibir o mecanismo de condução nervosa/sensitiva que origina a dor; e obliteradores, que atuam de forma a vedar os túbulos dentinários, impedindo a micromovimentação dos fluidos dentro desses, bloqueando assim, o estimulo nervoso indiretamente.

Mas o que determinará a escolha do agente dessensibilizante?

O principal fator influente na escolha do agente será o principal motivo pelo qual a sensibilidade foi originada. A HD originada pelo fator biocorrosivo irá apresentar maior quantidade de fibras colágenas expostas e menor quantidade de matriz inorgânica na superfície devido à remoção de cristais inorgânicos, sendo indicado nesse caso agentes de mecanismos obliterador cuja ação é realizada por meio da precipitação de proteínas, o qual irá associar-se à matriz orgânica exposta promovendo a obliteração dos túbulos dentinários. Em casos de exposição dos túbulos dentinários devido a mecanismos mecânicos (fricção e tensão), a dentina exposta terá grande quantidade de matriz inorgânica exposta por isso é recomendado a aplicação de agentes com precipitação de cristais e agentes cálcio-dependentes. Dessa forma, indica-se ao profissional a associação de mecanismos diferentes para redução da sensação dolorosa, utilizando-se agentes à base de potássio, que promoverão a dessensibilização das terminações nervosas e em sessões posteriores a aplicação de agentes de ação obliteradora que vedarão os túbulos dentinários e complementarão a ação dessensibilizadora.

Diante dos inúmeros protocolos associativos possíveis o nosso núcleo de pesquisa, ensino e extensão sugeri o tratamento em 5 (cinco) sessões, sendo as 2 (duas) primeiras com dessensibilizantes de ação neural e as demais com agentes obliteradores. Quando a hipersensibildade dentinária está associada a perda estrutural cervical não cariosa, agentes seladores e restauradores são indicações de primeira escolha, pois os mesmos irão promover a restauração da estrutura perdida, o preenchimento da exposição e obliteração dos túbulos expostos. Abaixo, seguem as imagens do passo a passo do protocolo clínico. As fotos foram obtidas durante o atendimento no Centrinho de LCNC e HD da Faculdade de Odontologia de Uberlândia - UFU/MG.

1a Sessão - 1o Passo: Realizar Isolamento Relativo com algodão e abridor de boca com sucção ativa do sugador.

1a Sessão - 2o Passo: Realizar profilaxia com pasta de pedra pomes, manipulando em um pote Dappen pedra pomes e soro fisiológico, utilizando um micromotor e taça de borracha.

1a Sessão - 3o Passo: Inserção de fio afastador #000 ou #0000 no interior do sulco gengival: seco, sem adição de qualquer tipo de hemostático! O fio tem ação exclusivamente mecânica, afastando a margem gengival.

1a e 2a Sessões - 4o Passo: Aplicar o gel dessensibilizante de ação neural: Nitrato de Potássio (Potenza Esente 2% da PHS) por 2 sessões, sendo 2 aplicações por sessão. A primeira aplicação com fio afastador posicionado no sulco gengival, e a segunda aplicação sem o fio afastador. Deve-se aplicar uniformemente sobre os dentes, com microaplicador, e aguardar tempo mínimo de 5 minutos, friccionando a cada 2 minutos.

3a e 4a Sessões: Aplicar o Agente Dessensibilizante de ação mista Oxalato de Potássio (Painless BM4), com o auxílio de um microaplicador e friccionar o produto na superfície dental por 10 segundos. Deixar o produto em contato com o dente por 5 minutos. Aplicar 2 vezes na mesma sessão. Para completar o protocolo de 4 sessões, você pode repetir este agente na quarta sessão. Em casos de sensibilidade múltipla e intensa, você pode aplicar na última sessão selantes de alta concentração de flúor, como Clinpro XT Warnish (3M) ou Bifluorid (VOCO). Por outro lado, se você detectar presença de hipersensibilidade sub-gengival, você pode optar por agentes mais fluidos como Glutaraldeído 5% diluídos em HEMA 35% como Glu-HEMA (PHS) ou Gluma (Kulzer).

Lembre-se que na sociedade existem grupos de alto risco para desenvolver LCNC e HD na cavidade oral. Atentem-se para a sessão da anamnese bem realizada, mapeando a associação dos principais fatores etiológicos (hábitos parafuncionais, dieta ácida, doenças gástricas, fatores ocupacionais, pós-ortodônticos entre outros).

Esquema didático que associa os principais fatores etiológicos das LCNC e HD. Adaptado de Grippo et al 2012.

O sucesso do tratamento está mais relacionado a sua habilidade de diagnosticar a causa e tratá-la, removê-la ou controlá-la, do que apenas utilizar materiais restauradores ou dessensibilizadores. E a última dica é que você utilize sempre a associação de mecanismos dessensibilizantes, e nunca um único agente de forma isolada. O quadro abaixo é um esquema de 5 opções de protocolos associativos distribuídos em 4 sessões com intervalos mínimos de 48h (o intervalo pode ser até 7 dias), iniciando com agentes de ação neural e finalizados com agentes obliteradores.

Quadro descritivo com 5 opções de protocolo de tratamento para a Hipersensibilidade Dentinária associando agentes de ação neural com agentes obliteradores.

Esperamos ter ajudado você no tratamento da HD! E não tenha vergonha: escreva-nos e tire suas dúvidas!

Aguardaremos sua visita no Centrinho para Tratamento de Pacientes com LCNC e HD aqui na Universidade Federal de Uberlândia. Ficamos na Clínica do Bloco 4T, Campus Umuarama, FO-UFU, Rua Pará 1720 CEP 48400-000 Uberlândia-MG, toda segunda-feira das 17h30min as 20h30min.

Até breve!

Equipe LCNC | FO | UFU

Paulo Vinicius Soares

Especialista em Dentística pela Faculdade de Odontologia – UFU

Mestre em Reabilitação Oral pela UFU

Doutor em Clínica Odontológica pela Faculdade de Odontologia - Unicamp

Pós-Doutorado e Scholar Visiting pela University of Illinois – Chicago

Coordenador do Grupo de Pesquisa LCNC/FO - UFU (MG)

Cirurgiões Dentistas Graduados na Faculdade de Odontologia da UFU (MG)

Mestrandos do Programa de Pós-Graduação da FO/UFU (MG)

Membros do Grupo de Pesquisa LCNC da FO/UFU (MG)

Meu propósito é te ajudar a ter autonomia por meio do conhecimento, descomplicando a odontologia e a comunicação. E como faço isso?

Eu me coloco no seu lugar, identifico o que está te impedindo de ser feliz nos seus resultados e "desato os nós" por meio de uma linguagem simples e acessível! Sou formada pela UNESP | Araçatuba; Mestre e Doutora em Dentística pela UNESP | Araraquara e Professora de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas | RS.

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