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Resinas “Bulk-Fill”

Resinas “Bulk-Fill”

Avanço tecnológico ou estratégia empresarial para vendas? Modismo passageiro ou uma categoria de material restaurador que encontrou seu espaço e que veio para ficar? Ouviremos falar destes materiais daqui 5 ou, no máximo, 10 anos? O que muda no protocolo clínico? Vantajosas ou não? Confiáveis ou não? Você usaria este material na sua filha? Muitas são as dúvidas a respeito das resinas “bulk-fill” (do inglês), também denominadas resinas de preenchimento em bloco, de preenchimento único ou preenchimento em massa. Neste artigo, especialmente elaborado para o Blog Opalini, procuramos abordar o tema de forma crítica e responsável, embasada na literatura científica disponível até o dia de hoje, data do fechamento desta matéria, mas também com a mente aberta para as possibilidades de uso desta classe de material restaurador que tem despertado a atenção e o interesse de tantos profissionais. Para isto, procuramos responder – ou explorar - aquelas perguntas com as quais frequentemente nos deparamos com uma linguagem voltada para clínicos, estudantes e entusiastas. Esperamos que ao final da leitura deste texto o leitor seja capaz de considerar os diversos aspectos envolvidos na escolha de um material (tanto aqueles fartamente descritos na literatura quanto aqueles pouco explorados) e que possa fazer a sua escolha com base no pensamento crítico e voltado para a sua realidade ao invés de simplesmente seguir “uma receita de bolo” ou “formadores de opinião”.

Boa leitura!

Nota 1: os autores da matéria não possuem relação de interesse ou trabalho com nenhuma empresa do ramo odontológico.

Nota 2: os autores agradecem ao apoio para pesquisa dado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

1. O que são as resinas bulk-fill?

As resinas bulk-fill são, de forma resumida, compósitos odontológicos restauradores que permitem, segundo seus respectivos fabricantes, uma maior profundidade de polimerização após exposição à luz do que aquelas resinas ditas “tradicionais”/”convencionais”. Desta forma, é possível realizar o preenchimento de cavidades ou confecção de esculturas sobre núcleos endodônticos com incrementos de 4-5mm de espessura, diferente dos “2mm” comumente indicados para os materiais tradicionais. Neste ponto, é importante destacar que as resinas bulk-fill não são necessariamente um grande salto tecnológico específico, mas o resultado de uma série de fatos que acabaram por convergir na possibilidade de uso/desenvolvimento destes materiais. E quais seriam estes fatos

a) Evolução em termos de qualidade e quantidade de luz emitida pelas fontes disponíveis no mercado.

b) Melhor compreensão a respeito do desenvolvimento das tensões resultantes do processo de polimerização do material e, consequentemente, melhora das resinas compostas. Um simples exemplo foi quando houve a substituição parcial de monômeros como o BisGMA e o TEGDMA por BisEMA e UDMA, o que trouxe uma redução significativa nos valores de contração dos materiais (e isto não é novidade).

Figura 1: Monômeros comumente empregados na formulação das resinas compostas. (A) BisGMA; (B) TEGDMA; (C) UDMA; (D) BisEMA

c) Apesar de ser um tema controverso, não é de hoje que existe um questionamento sobre qual seria a melhor técnica de preenchimento de uma cavidade, seja por incrementos reduzidos, seja de forma única (Versluis et al., 1996; Bicalho et al., 2014; Rosatto et al., 2015; Kim et al., 2016). Foi há mais de 20 anos que Versluis e colaboradores (1996) apontaram para a possibilidade de menor desenvolvimento das tensões quando empregadas técnicas “bulk” (com aqueles materiais disponíveis na época). É importante lembrar que, talvez, este achado poderia ser resultante de menor grau de conversão de monômeros em polímeros (o que não é adequado). Desta forma, os tradicionais “2mm de espessura” também têm sido sugeridos ao longo dos anos como forma de garantir que haja uma adequada polimerização do incremento. Mas vale lembrar que as fontes de luz melhoraram muito com o passar do tempo.

d) A interpretação dos fatores associados às falhas das restaurações de resinas compostas em dentes posteriores mudou bastante nos últimos anos em função dos estudos de acompanhamento clínico de longa data (Opdam et al., 2014). De forma geral, a significância exagerada associada aos materiais tem sido questionada (Demarco et al., 2012), assim como a real significância do efeito da tensão de polimerização sobre a longevidade de restaurações de resinas compostas. Van Dijken (2010), por exemplo, questiona a real significância do fator-C sobre a longevidade das restaurações de resina composta. De qualquer maneira, o problema da tensão de polimerização e possíveis falhas associadas à formação de fendas é que a simples pigmentação das margens muitas vezes é associada a um erro de diagnóstico e consequente troca precoce de restaurações. Esta pigmentação pode estar associada a outros fatores, como a simples absorção de pigmentos pela camada adesiva. O texto publicado aqui no blog pelo Prof. Maximiliano Cenci é uma leitura obrigatória sobre este assunto! Retomando o raciocínio, se alguns fatores associados aos materiais são realmente menos significativos clinicamente do que se esperava no passado, é inevitável que surja o questionamento da comunidade acadêmica e da indústria sobre a possibilidade de uso de materiais e técnicas em um formato pouco considerado até pouco tempo atrás (não que concordemos com extrapolações).

Diante deste cenário, diversas empresas do mercado odontológico buscaram desenvolver misturas que possibilitam uma profundidade de polimerização adequada associada ao desenvolvimento de tensões dentro de uma faixa de normalidade, sendo assim mais “amigáveis” para o clínico. Se por um lado algumas destas empresas realmente investiram na aplicação de novas tecnologias, como sistemas iniciadores e monômeros específicos, componentes orgânicos e inorgânicos capazes de absorver tensões, etc, outras simplesmente balancearam componentes que já eram comumente empregados (Alshali et al., 2015). O quanto cada empresa realmente “inovou” fica protegido por seus respectivos registros de patentes e impedem uma discussão mais específica e profunda sobre determinado assunto.

2. Quais são as indicações para uso destas resinas?

As resinas bulk-fill foram inicialmente indicadas para o preenchimento de cavidades amplas/profundas de dentes posteriores (Classes I e II), mas também têm sido indicadas para outros fins, como por exemplo a construção de núcleos de preenchimento.

Figura 2: Sequência clássica da aplicação de resina bulk-fill fluida seguida da aplicação de uma resina composta tradicional.

3. Existe alguma contraindicação?

Devido ao aspecto mais translúcido geralmente empregado na formulação destes materiais os mesmos acabam sendo menos empregados em restaurações de dentes anteriores.

4. Quais são as formas de apresentação comercial?

Os materiais apresentam-se basicamente em duas consistências: fluída (que surgiu primeiramente no mercado) ou regular. Os materiais regulares podem ser encontrados no formato de tubo tradicional ou em cápsula (compule), sendo necessário o uso de seringa/pistola de aplicação. Apenas uma marca comercial apresenta-se de forma diferente para o seu uso, necessitando de um aparelho de ultrassom específico que permite “fluidificar” a mistura para o momento do preenchimento. Depois de cessar a vibração a resina volta a um estado de viscosidade próximo daquele tido como regular, permitindo a manipulação e escultura com os instrumentos tradicionais.

O Quadro 1 apresenta uma série de produtos disponíveis no mercado brasileiro, nas mais diversas viscosidades, apresentação comercial e preços. Sabe-se que o material restaurador empregado é menos importante para o sucesso de um tratamento do que fatores associados às condições gerais do paciente (Demarco et al. 2012; Correa et al., 2013) ou à qualidade do cirurgião-dentista. Porém, a escolha do material é fundamental quando consideramos uma equidade destes fatores e nem sempre a escolha associada ao preço é garantia de sucesso ou de fracasso. Diante deste cenário, sugere-se o uso de materiais que possuem acompanhamentos clínicos de médio prazo e longo prazo.

Quadro 1: Exemplos e informações de compósitos “bulk-fill” e “convencionais”/”tradicionais” disponíveis no mercado brasileiro.

* Considerando valores obtidos em 5 sites especializados para venda de produtos odontológicos (listados pela plataforma de busca Google). Algumas marcas de resinas bulk-fill estão presentes no mercado nacional, mas não foram listadas em função da falta de disponibilidade nos sites para vendas na data da procura.

** 20 cápsulas de 0,3g cada. Necessita de ultrassom específico: SonicFill da própria Kerr (Valor aproximado, 1.050,00 reais).

Fora do Brasil, algumas empresas têm anunciado resinas “bulk-fill” capazes de serem usadas em incrementos de até 10 mm (Chesterman et al., 2017). Entretanto, fica evidente que são compósitos ativados por sistemas duais (fotoativado e quimicamente ativado) e, desta forma, não seriam diferentes daqueles cimentos já disponíveis para confecção de núcleos de preenchimento.

5. O que mudou na composição?

Diferentes estratégias foram seguidas com o intuito de (a) elevar a profundidade de polimerização e (b) reduzir, ou simplesmente não elevar, os valores de tensão geradas pela ativação de grandes incrementos (Fronza et al., 2015; Al Sunbul et al., 2016). Seguem abaixo algumas das estratégias relatadas por fabricantes e pela literatura.

a) Aumento da translucidez: o aumento da translucidez - e consequente melhora da transição da luz pelo corpo do material - pode ser obtido de diferentes maneiras, como por exemplo a redução da quantidade de partículas de carga inorgânica ou o balanço entre partículas de carga e monômeros com base na similaridade dos índices de refração (pois quanto maior for a diferença do índice de refração de uma partícula de carga e a mistura monomérica maior será o espalhamento de luz e consequente aumento da opacidade... ou seja, quanto mais próximos, mais translúcido será o material).

b) Emprego de “moduladores de polimerização”: existe a descrição do uso de grupos fotoativos específicos associados à monômeros empregados na matriz resinosa. Estes grupos seriam capazes de interagir com o fotoiniciador e melhorar a possibilidade de ativação em grandes profundidades. (Exemplo de aplicação: Surefl SDR; Dentsply).

c) Uso de fotoiniciadores alternativos: existe o relato do uso de sistemas fotoiniciadores alternativos à CQ, a molécula fotossensível mais empregada como iniciador em resinas compostas ativadas por luz visível (azul).

Exemplos:

Resina Tetric N-Ceram Bulk-fill (Ivoclar Vivadent), formulada com o fotoiniciador IvocerinÆ, um derivado de benzil-germânio (Moszner et al., 2008). Segundo o fabricante, o sistema seria efetivo e capaz de promover fotoativação de incrementos de até 4mm em apenas 10 segundos quando empregado o aparelho fotoativador indicado pela própria empresa.

Resina Opus (FGM), formulada com o sistema APS (“Advanced Polymerization System”).


Figura 3: Fotoiniciador canforoquinona.

d) Uso de monômeros flexíveis: esta é provavelmente a forma mais empregada pelos fabricantes. Basicamente, o emprego de monômeros do tipo UDMA, puro ou modificado, e/ou BisEMA reduz a viscosidade da resina quando comparada às formulações contendo BisGMA em sua formulação, permitindo um aumento do potencial de conversão de monômeros em polímeros (Stansbury, 2012; Alshali et al., 2015; Durner et al., 2015; Fonseca et al., 2017).

e) Uso de monômeros específicos: diversos sistemas monoméricos têm sido propostos ao longo dos anos, tanto no ambiente acadêmico quando na indústria. De tantas possibilidades, poucas são aquelas que realmente chegam a um produto disponível para comércio em larga escala. Um exemplo de aplicação seria o uso de ORMOCERs (Voco). Este tipo de componente tem sido aplicado em uma série de materiais, recentemente, também na composição de resinas bulk-fill. Entretanto, estudos laboratoriais com estes componentes não mostraram benefícios (Cavalcante et al., 2012).

6. Precisa de adesivo específico?

Não! Estas resinas podem ser empregadas com qualquer sistema adesivo disponível no mercado. Para saber mais sobre sistemas adesivos, sugerimos os artigos do Prof. Rafael Ratto Moraes publicados aqui no blog: Por que os adesivos auto-condicionantes ainda não são populares no Brasil e Perguntas e Respostas sobre adesivos autocondicionantes.

7. O que mudou na técnica?

Diversas técnicas têm sido preconizadas com o uso das resinas bulk-fill, com variações em função da viscosidade do material empregado. Seguem abaixo algumas das possibilidades. Para os exemplos abaixo foram consideradas cavidades do tipo classe II em função de envolver as questões relativas ao ponto de contato (esquema adaptado de Chesterman et al., 2017).


Figura 4: Técnica com (A) base com resina bulk-fill fluída + (B) cobertura com resina composta (compósito) convencional pela técnica incremental.


Figura 5: Técnica com (A) ponto de contato reestabelecido com resina composta convencional + (B) base de resina bulk-fill fluída + (C) cobertura com resina composta (compósito) convencional pela técnica incremental.


Figura 6: Técnica com (A) base com resina bulk-fill de consistência regular + (B) cobertura com resina composta (compósito) convencional pela técnica incremental.


Figura 7: Técnica com (A) ponto de contato reestabelecido com resina composta convencional + (B) base de resina bulk-fill regular + (C) cobertura com resina composta (compósito) convencional pela técnica incremental.


Figura 8: Técnica com (A) restauração completa com resina bulk-fill de consistência regular.

Variações de técnicas:

Pré-aquecimento: Além das técnicas acima descritas, variações envolvendo o uso de resinas bulk-fill aquecidas (60-70oC) já foram propostas, assim como de materiais convencionais (Tauböck et al., 2015). A intenção neste caso é a de aumentar o potencial de polimerização do material pela redução temporária da viscosidade e aumento do potencial cinético dos monômeros e iniciadores (fazendo uma analogia com as situações do nosso dia-a-dia, é mais fácil misturar um pó de chocolate ao leite aquecido do que frio) sem que haja o aumento dos valores de tensão de polimerização em função da possibilidade de se retardar o estágio de “vitrificação” do material (o momento no qual ele passa do estado plástico, “móvel”, ao elástico, “rígido”). Apesar da melhora dos resultados em situações laboratoriais (Tauböck et al., 2015), não há comprovação do real benefício em situações clínicas até o momento.

Aplicação de ultrassom: O uso de energia de ultrassom é proposto pela empresa Kerr ao seu produto Sonic FillÆ. O princípio deste sistema está associado ao fato de que o ultrassom é capaz de elevar a fluidez do material. Consequentemente, haveria a possibilidade de melhora da adaptação do compósito paredes e margens cavitárias e aumento do potencial de polimerização (como descrito acima, mas aplicando ultrassom ao invés do aumento da temperatura). Os estudos in vitro têm demonstrado resultados satisfatórios (Al-Ahdal et al. 2015; Ibarra et al., 2015; Kalmowicz et al., 2015). Uma questão a ser considerada pelo CD é o valor adicional a ser investido na ponta de ultrassom recomendada pelo fabricante.

8. É necessário o emprego de um aparelho fotoativador específico?

Não necessariamente...

Apesar de algumas formulações de resinas bulk-fill apresentarem modificações no sistema fotoiniciador é importante salientar que nenhuma resina bulk-fill presente no mercado seria incapaz de ser sensibilizada por uma fonte de luz azul e a razão é simples: de forma geral, a azul possui maior capacidade de atingir grandes profundidades que a luz violeta. A explicação para isto deve-se ao fato de que as fontes de luz violeta presente em alguns poucos aparelhos fotoativadores (Valo e Bluephase) possuem (a) menor irradiância (mW/cm2) e (b) maior susceptibilidade ao espalhamento - quando incide contra as partículas de carga tipicamente empregadas na formulação das resinas compostas - do que a luz azul. Consequentemente, a capacidade de ativação de fotoiniciadores que possuem pico de absorção de luz em comprimentos de onda menores (violeta possui comprimento de onda menor do que o azul) é prejudicada em maiores profundidades. Este comportamento já foi demonstrado tanto em resinas experimentais (Schneider et al., 2012; de Oliveira et al., 2016) quanto bulk-fill disponível comercialmente (Zorzin et al., 2015; Rocha et al., 2017).

Uma outra questão que deve ser considerada é que poucas são as resinas bulk-fill formuladas com fotoiniciadores alternativos. Um exemplo é a resina Tetric N-Ceram Bulk Fill (Ivoclar-Vivadent), a qual possui um fotoiniciador (Ivocerin – marca registrada pela Ivoclar-Vivadent) menos amarelo que o tradicional fotoiniciador canforoquinona em sua composição.

Diante do exposto, pode-se considerar que o CD que possua um aparelho que emite luz azul e violeta (Exemplos: Bluephase 2, Ivoclar-Vivadent, e Valo, Ultradent) poderá ficar confortável ao usar qualquer material sem a preocupação com eventuais incompatibilidades entre o sistema fotoiniciador e seu aparelho fotopolimerizador, tanto para resinas bulk-fill quanto para resinas convencionais. Por outro lado, estes aparelhos são de um custo elevado. Assim, o CD também poderia optar por usar um bom aparelho foto – que possua irradiância (mW/cm2) adequada e pouca dispersão de luz à medida em que se afasta do objeto - e optar pelo uso de uma resina que não emprega um sistema fotoiniciador alternativo (principalmente no caso das bulk-fills). Para saber mais a respeito de aparelhos de fotoativação, sugere-se a leitura da matéria também publicada aqui no blog pelo Prof. Bruno Reis.

9. Qual seria a vantagem no uso deste material?

Redução (a) da sensibilidade técnica (variabilidade em função do operador) e (b) do tempo clínico de execução de uma restauração.

Atribuir aos materiais bulk-fill a redução da variabilidade imposta pelo operador é discutível. Com a necessidade de fotoativar grandes incrementos, tanto o aparelho foto quanto a educação em fotoativação do operador poderão influenciar nos resultados de forma drástica (temos dados que mostram isto nitidamente e serão apresentados em breve). Infelizmente, o conhecimento de grande parte dos CDs a respeito dos aparelhos e fundamentos de fotoativação é muito baixo (Kopperud et al., 2017) e maior atenção deve ser dada em relação aos princípios de fotoativação tanto nos cursos de graduação quanto naqueles de formação continuada.

Com relação ao tempo clínico, é indiscutível que há uma grande redução no tempo para execução de uma restauração, em especial naquelas que envolvem cavidades de maior volume a ser preenchido, e provavelmente é o grande fator a ser considerado para que esta categoria de material seja escolhida.

10. Teria alguma desvantagem?

  • As desvantagens para esta categoria de material são:

- pouca evidência científica baseada em acompanhamentos clínicos (obviamente em função de ser uma categoria de material lançada à pouco tempo no mercado);

- maior translucidez e pouca disponibilidade de cores, em função das próprias indicações do material;

- em função dos aspectos estéticos normalmente é indicada apenas para dentes posteriores, enquanto as tradicionais resinas híbridas (ou “nanoparticuladas”, ou “nanohíbridas) são indicadas tanto para anteriores quanto posteriores;

- custo mais elevado para as resinas bulk-fill fluidas quando comparadas com a maioria das boas resinas tradicioanais (Quadro 1).

11. Quais as evidências disponíveis?

Diversos artigos foram e têm sido publicados nos últimos anos a respeito de pesquisas in vitro com resinas bulk-fill com resultados conflitantes em função das condições e metodologias empregadas (Yamasaki et al., 2013; Furness et al., 2014; Guo et al., 2016; Kalliecharan et al., 2016; Caneppele & Bresciani; 2016), o que dificulta um simples apontamento para qual seria a melhor técnica ou o melhor material a ser indicado para o clínico. Desta forma, seguem algumas considerações gerais à respeito das evidências laboratoriais disponíveis até o momento:

* As resinas bulk-fill não são consideradas substitutos perfeitos para resinas tradicionais (Kim et al., 2015).

* As resinas bulk-fill fluidas devem ser recobertas com resinas de consistência regular nas áreas de contato oclusal (Al Shaafi et al., 2015).

* A profundidade de polimerização é dependente da qualidade e quantidade de luz empregada e o processo de fotoativação não pode ser negligenciado pelo clínico (assim como em nenhum outro procedimento que envolva fotoativação)!

Com relação aos achados clínicos, há poucos dados publicados a respeito do tema, inclusive pelo fato de ser uma categoria de material relativamente nova.
O estudo de acompanhamento clínico mais longevo até o momento foi realizado por Van Dijken e Pallessen (2016). Após 5 anos de acompanhamento os autores não encontraram diferenças significativas entre restaurações confeccionadas com a resina bulk-fill Surefil SDR (Dentsply) e a resina Ceram X mono+ (Dentsply).

12. Qual material indicaríamos?

Primeiramente, é fundamental destacar que o padrão de cuidado estabelecido até o presente momento baseia-se no uso das resinas tradicionais, usadas em incrementos de 2 mm de espessura. As resinas bulk-fill surgem como uma alternativa interessante, com resultados promissores, e que necessita de constante avaliação. Diante deste cenário, diversas marcas têm apresentado resultados satisfatórios em pesquisas laboratoriais e podem ser empregadas.

13. Respostas possíveis para as possíveis dúvidas...

a) Avanço tecnológico ou estratégia empresarial para vendas? Depende... provavelmente um pouco dos dois...

b) Modismo passageiro ou uma categoria de material restaurador que encontrou seu espaço e que veio para ficar? De maneira pessoal, acreditamos que é uma categoria que encontrou o seu nicho e veio para ficar...

c) Ouviremos falar destes materiais daqui 5 ou, no máximo, 10 anos? Diante das evidências e perspectivas atuais, acreditamos que sim, mas talvez com novos nomes em função de estratégias de marketing e vendas. Como descrito previamente, a maioria das resinas bulk-fill são formuladas em grande parte com os mesmos componentes empregados há muitos anos. Mas é uma opinião pessoal, não uma certeza...

d) O que muda no protocolo clínico? Depende do tipo de material que você irá escolher. Mas em geral a única mudança é a redução dos incrementos e, com isto, do tempo de atendimento clínico.

e) Vantajosas ou não? Depende de uma série de fatores, como por exemplo do modelo de atendimento praticado (privado sem plano, privado com plano, setor público). Também é importante considerar se o CD está confortável e confiante para se adaptar a uma nova rotina de trabalho e aceitar que haverá uma curva de aprendizado. Mas não há como negar que há uma grande redução do tempo de execução da restauração e isto é extremamente vantajoso para o clínico! Agora o tempo dirá se também será vantajosa ou não para os pacientes.

f) Confiáveis ou não? De forma geral, sim! Mas - como qualquer outro material - apenas nas mãos de bons clínicos (com boa destreza manual e principalmente conhecimento teórico dos fatores associados ao sucesso e falha de restaurações) e que trabalhem em condições adequadas. É importante salientar que em um recente estudo realizado com um grupo de CDs do RJ - que manipularam uma série de resinas bulk-fill disponíveis no mercado nacional - ficou evidente que a marca comercial exerce forte influência sobre a decisão de escolha (Fonseca et al., 2016). Desta forma, se por um lado o CD não deve ser guiado apenas pelo baixo preço de um produto, o mesmo dever ter o cuidado de não pagar a mais em função de “marketing”.

d) Você usaria este material na sua filha? O teste da filha (Burke e Kelleher, 2009) é um excelente teste individual a respeito da segurança que alguém possui em relação a um tratamento ofertado para terceiros. Neste caso, usaríamos uma resina bulk-fill tranquilamente, dando preferência por aqueles materiais já relatados em acompanhamentos clínicos bem conduzidos.

Espero que tenham aproveitado a leitura!

Abraço a todos!

Luis Felipe Jochims Schneider

Professor de Graduação e Coordenador Adjunto do Curso de Mestrado Profissional em Odontologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA), Rio de Janeiro, RJ

Coordenador do Núcleo de Pesquisa de Biomateriais Odontológicos, UVA, RJ

Professor Adjunto IV da Universidade Federal Fluminense (FO/UFF), Niterói, RJ

Pós-Doutorado – Universidade de Manchester (Inglaterra)

Doutor em Materiais Dentários (FOP/UNICAMP; OHSU/EUA)

Mestre em Materiais Dentários (FOP/UNICAMP)

Cirurgião-Dentista (UNISC, RS)

Larissa Maria Assad Cavalcante

Professora do Curso de Mestrado Profissional em Odontologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA), Rio de Janeiro, RJ

Professora Adjunto IV da Universidade Federal Fluminense (FO/UFF), Niterói, RJ

Professora do Curso de Graduação em Odontologia da Universidade Salgado Oliveira (UNIVERSO), Niterói, RJ

Pós-Doutorado – Universidade de Manchester (Inglaterra)

Doutora em Clínica Odontológica, Área de Concentração em Dentística (FOP/UNICAMP; Manchester/Inglaterra)

Mestre em Clínica Odontológica, Área de Concentração em Dentística (FOP/UNICAMP)

Especialista em Dentística Restauradora (CFO)

Cirurgiã-Dentista (UNOESTE, SP)

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Meu propósito é te ajudar a ter autonomia por meio do conhecimento, descomplicando a odontologia e a comunicação. E como faço isso?

Eu me coloco no seu lugar, identifico o que está te impedindo de ser feliz nos seus resultados e "desato os nós" por meio de uma linguagem simples e acessível! Sou formada pela UNESP | Araçatuba; Mestre e Doutora em Dentística pela UNESP | Araraquara e Professora de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas | RS.

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