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Hollywood ensina Odontologia: a crítica de um dentista-cineasta.

Hollywood ensina Odontologia: a crítica de um dentista-cineasta.

Alexandre Severo Masotti

Cineasta pelo Curso de Cinema e Audio-Visual da Universidade Federal de Pelotas; Professor de Dentística da Universidade Federal de Pelotas; Mestre em Materiais Dentários pela PUC-RS, Doutor em Dentística pela PUC-RS, Especialista em Dentística pela UFRGS


Patrícia dos Santos Jardim

Professora da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas; Mestre e Doutora em Dentística pela UNESP-Araraquara, Fundadora da Plataforma Digital Opalini, Odontologia Descomplicada.



Na virada de ano 2018/2019 a empresa de streaming internacional NetFlix renovou sua programação, colocando a disposição dos assinantes mais uma safra de títulos variados e direcionados a todas as preferências.

Então, no dia 01 de Janeiro de 2019, em meio a mega produções com atores e diretores famosos, surge a oportunidade de assistir a um novo documentário (de acordo com a classificação de gêneros do próprio NetFlix). A Raiz do Problema (2018,The Root Cause) do diretor australiano Frazer Bailey.

A sinopse da produção não deixa dúvidas, o tema será polêmico: A busca de 10 anos de um homem pela causa subjacente de suas doenças crônicas expõe os riscos prejudiciais à saúde do tratamento de canal dentário (https://www.netflix.com/br/title/81000862).

Profissionais de odontologia demonstraram extrema indignação não só no Brasil, país com maior número de dentistas do mundo, mas em todo mundo. Mídias impressa e digital, de âmbito nacional e internacional, publicaram várias matérias sobre este documentário. Associações de classe repudiaram publicamente tanto o documentário como o próprio NetFlix. Outros documentários da programação do streaming não conseguiram tamanho espaço na mídia. Ao que parece, a polêmica pagou a aposta.

Pelas declarações emitidas pelo diretor Frazer Bailey, ele não possui motivações financeiras, sendo somente um diretor que dirige comerciais para sobreviver. O documentário conta uma experiência pessoal; sua intenção declarada no filme é espalhar a sua verdade individual para o mundo. Uma verdade pessoal incômoda o suficiente para motivar sua retirada do ar a pedido de associações de classe?

Como cirurgião-dentista vejo os problemas de cunho ético presentes no documentário. Porém, sinto que outros colegas já iniciaram a procura por limitações cientificas, técnicas e de cunho acadêmico. Seu resultado lógico é inegável. Cirurgiões-dentistas são pessoas sérias que realizam procedimentos baseados em ciência.

Porém, acredito que podemos aprender algo muito valioso sobre comunicação. Para o diretor Frazer Bailey não existe má propaganda, somente existe propaganda. Ou seja, um martelo e um filme são a mesma coisa pois a comunicação é somente uma ferramenta.

Assim, se você acredita que o documentário "A Raiz do Problema" é um inimigo e que deva ser retirado de exibição; ou deseja utilizar as informações presentes no documentário; como Cineasta proponho analisar a obra sem julgar o autor, sem acionar o juízo de valores para seu diretor. Assim, não existe pretensão de cunho ético, somente uma tentativa de demonstrar as ferramentas de comunicação utilizadas na obra.

Documentário para quem? Documentário pra que?

Neste ponto, pretendo apresentar um ponto de vista: quem tem perfil na web faz documentário.

Isto diz respeito a qualquer ato de alimentar a web com informações, fotos, comentários, videos e outras mídias.

Nas palavras de Bill Nicholls a tradição do documentário está profundamente enraizada na capacidade de ele nos transmitir uma impressão de autenticidade. E essa é uma impressão forte. (…) Quando acreditamos que o que vemos é testemunho do que o mundo é, isso pode embasar nossa orientação ou ação nele. Obviamente, isso é verdadeiro na ciência, em que o diagnóstico por imagem tem importância vital em todos os ramos da medicina. A propaganda política, como a publicidade, também se funda na nossa crença em um vínculo entre o que vemos e a maneira como o mundo é, ou a maneira como poderíamos agir nele. Assim fazem muitos documentários quando têm a intenção de persuadir-nos a adotar uma determinada perspectiva ou ponto de vista sobre o mundo.”

A primeira vista, a correspondência entre documentários e redes sociais é sensacional. Principalmente se os usuários destas plataformas forem dissuadidos a fazer o debate entre suas obras (perfil digital), deixando o autor (ser humano) livre para criar. Quem fizer a melhor obra, prevalece.

Porém, Bill Nichols também adverte "Certas tecnologias e estilos nos estimulam a acreditar numa correspondência estreita, senão exata entre imagem e realidade, mas efeitos de lentes, foco, contraste, profundidade de campo, cor, meios de alta resolução (filmes de grão muito fino, monitores de vídeo com muitos pixels) parecem garantir a autenticidade do que vemos. No entanto, tudo isso pode ser usado para dar impressão de autenticidade ao que, na verdade, foi fabricado ou construído." "Como as idéias sobre o que é e o que não é adequado ao documentário mudam com o tempo, alguns filmes inflamam o debate dos limites entre ficção e não ficção."

Novamente podemos afirmar que a correspondência com as redes sociais é impactante. E mais, quem possuir conhecimento das ferramentas de comunicação, estará em vantagem estratégica.

Assim, não surpreende que para a geração de nativos digitais (e muito dos que se tornaram “nativos") opinião possua a mesma validade que evidência, pois a embalagem do produto torna sua análise de validade mais difícil (assim como um produto pirata).

Os Mecanismos Utilizados no Documentário A Raiz do Problema

Como afirma Bill Nichols, este gênero se afirma na capacidade de transmitir autenticidade. Então, as escolhas do diretor e sua equipe estão todas voltadas para afirmar e reafirmar a verdade de sua tese. Neste caso: tratamentos de canal dentário são prejudiciais a saúde geral.

A apresentação da tese é feita por um especialista em saúde humana no primeiro minuto do filme. Sua afirmação é cercada de “itens de autoridade”: homem, branco, mais velho, ocupando o centro do quadro, a frente de uma estante com muitos livros, equipamentos médicos, uma parede com certificados, o indefectível jaleco branco e um título que anuncia seu nome e grau acadêmico na parte de baixo do quadro; enquanto ele fala em voz profunda e grave. Os 72 minutos que se seguem são inteiramente dedicados a provar sua afirmação. Exatamente como observamos em tantas peças audiovisuais mundo afora, pois evocam signos de autoridade que o nosso inconsciente aceita facilmente.

Dentre os estilos do documentário, estes podem ser divididos de acordo com a forma de abordagem ou apresentação formal desta tese: modo expositivo, observativo, poético, reflexivo, participativo e performático. Sem explorar todas as possibilidades de classificação, pode-se situar este documentário nos modos participativo (enfatiza a interação de cineasta e tema) e performático (enfatiza o aspecto subjetivo ou expressivo do próprio engajamento do cineasta com seu tema e a receptividade do público a esse engajamento; rejeita ideias de objetividade em favor de evocações e afetos) com alguns elementos dos outros modos e altíssimas doses de sensacionalismo.

Então, nos primeiros minutos do documentário, após a afirmação da autoridade médica, escutamos a voz de um narrador "off" - a famosa voz de Deus, pois sabe de tudo antecipadamente e não se mostra - “este sou eu, a esquerda,..., eu ainda não sabia, mas aquele soco que quebrou meus dentes acabou com minha vida".

No documentário, a apresentação em primeira pessoa aumenta a intensidade da exposição e possibilita que seu ponto de vista seja totalmente explicito (além de abrir as portas para subjetividades do apresentador). Ou seja, não deixa espaço para o público inferir intenções (que o diretor não deseja).

Novamente, estamos habituados a este "modus operandi" e isso nos deixa a vontade. Isto é chamado de a revanche do filme caseiro pois, desde que câmeras baratas invadiram o mercado e a internet possibilita sua distribuição imediata e sem custo, não existe mais a divisão entre o material produzido por “amadores" e "profissionais". Existe somente a divisão entre o que convence e prevalece e aquilo que desaparece sem deixar rastros. Podemos citar as redes sociais?

Porém, neste contrato entre platéia e diretor (autor), é necessário que exista clareza uma vez que se trata de um audiovisual que procura convencer corações e mentes de algo que irá afetar muito sua vida e suas tomadas de decisão. E então a questão se torna complicada no caso do documentário A Raiz do Problema.

Apesar de se colocar em primeira pessoa do começo ao fim do filme, utilizar a "voz off" em primeira pessoa, assumir a imagem na tela como sendo ele; nada disso é verídico em última análise. Então ocorre a primeira quebra de confiança no contrato entre diretor e platéia. O diretor está representado em tela por um ator (Ben Purser), a voz é de outro ator (Kevin Spink), existe um roteirista que não aparece nos créditos (Roy Kolberg) e as situações apresentadas são re-encenações realizadas por atores. Mas, nada disso é avisado a platéia. Isto, uma vez descoberto, contamina todo o material apresentado quanto a sua veracidade. Portanto, seja cuidadoso com a autenticidade pois ela é percebida como ponto chave em relatos desta natureza.

Se ganhar a confiança do público é difícil, apoiar-se nas autoridades disponíveis pode ser um caminho seguro. Contudo, o capital subjetivo destas “autoridades” é proporcional a sua credibilidade. Assim, subterfúgios como os já citados e o uso massivo de recursos de PNL (Programação Neuro-Linguística) pelos entrevistados durante suas falas, podem aumentar a possibilidade de aceitação de um assunto que não se sustenta a partir da análise científica aceita pelos meios acadêmicos. O público desavisado não possui defesas cognitivas para entender como está sendo induzido (manipulado?) e tende a aceitar mais facilmente a tese proposta. Alguma semelhança com a publicidade?

Outro ponto que chama a atenção é que, talvez, na tentativa de remediar a falta de assunto para assegurar o tempo de um longa metragem (possui 73 minutos, sendo o mínimo de 70 minutos para classificar como tal), o Diretor apela para um "pout-pourri" de estilos cinematográficos. Então, somos apresentados a trechos de comédia sexista, sensacionalismo macabro, poética pueril que dividem espaço com tentativas piegas de sensibilizar a plateia. O resultado é brega (como característica de um estilo) e a mensagem é confusa, por carregar a comunicação com excesso de ruídos que acabam por questionar a seriedade e, portanto, a credibilidade do filme.

Mas, o excesso também cobra seu preço. A lista de “autoridades médicas” entrevistadas é tão extensa, o método tão repetitivo (lembre-se sempre que menos é mais) e a falta de rumo tão evidente que o diretor comete o pior dos crimes no audiovisual contemporâneo: O FILME É CHATO!

Portanto, aproveite que este filme está na maior empresa de streaming do mundo e use-o para demonstrar o quanto a Odontologia é séria, pois ele coloca a profissão em evidência e você poderá facilmente desmontar as acusações feitas aos profissionais como um todo. Se a informação pode ajudar a ganhar confiança, este filme está com nota 3,9 (escala de zero a dez) no Internet Movie Database - IMDB (e vale a pena ler os comentários). Ou seja, o diretor está longe de ser um gênio incompreendido pelo grande público!

Referências Consultadas

Ancine. https://www.ancine.gov.br/pt-br/legislacao/instrucoes-normativas-consolidadas/instru-o-normativa-n-36-de-14-de-dezembro-de-2004 (acessado em 12/02/2019).

Bill Nichols. Introdução ao Documentário. 5 Ed; Editora Papirus; 2012.

Filmmelier. https://www.filmmelier.com/pt/br/film/5058/a-raiz-do-problema (acessado em 12/02/2019).

IMDB. https://www.imdb.com/title/tt7851798/ (acessado em 12/02/2019).

Paul Arthur. Feel the Pain. First-person docs are shooting the angst of their makers. What do they do for us? Film Comment. v.40; n.5; p.47-50; 2004.

Pierre Bourdieu. A produção da Crença. Contribuição para uma economia dos bens simbólicos. 3 Ed; Editora Zouk; 2015.

Richard Saul Wurman. Ansiedade de Informação 2: Um guia para quem comunica e dá instruções. Editora de Cultura; 2005.

Meu propósito é te ajudar a ter autonomia por meio do conhecimento, descomplicando a odontologia e a comunicação. E como faço isso?

Eu me coloco no seu lugar, identifico o que está te impedindo de ser feliz nos seus resultados e "desato os nós" por meio de uma linguagem simples e acessível! Sou formada pela UNESP | Araçatuba; Mestre e Doutora em Dentística pela UNESP | Araraquara e Professora de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas | RS.

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