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Fotoativação: o que você deve saber!

Fotoativação: o que você deve saber!

A escolha de um aparelho fotoativador, termo correto para os conhecidos fotopolimerizadores, é sempre um desafio! O mercado oferece muitas opções e as diversas áreas odontológicas podem requerer um equipamento com características específicas para um determinado fim. A odontologia estética e adesiva é totalmente “LED dependente” e, portanto, a qualidade da fotoativação influencia muito na longevidade dos nossos trabalhos (Price RB et al. 2015). Por exemplo, do que adiantaria o cirurgião-dentista executar laminados cerâmicos, com os melhores materiais de moldagem, sistemas adesivos, cimentos resinosos; enviar o caso para o melhor ceramista, e executar todo o protocolo técnico corretamente, se a luz emitida pelo fotoativador não tem intensidade suficiente para atravessar a cerâmica e atingir o cimento? Ou, se o comprimeto de onda que o LED emite não é compatível com o fotoiniciador do cimento? Ou ainda, que o tempo de fotoativação não é suficiente levando em conta a intensidade luminosa do fotoativador? Em outras palavras, todo trabalho cuidadosamente executado pode ser comprometido por uma má fotoativação. Ah, e vale lembrar que o compósito resinoso se tornar rígido, não significa que a fotoativação foi corretamente realizada!!! Mais do que se tornar rígido, o compósito precisa ter um alto de grau de conversão, ou seja, a maior quantidade possível de polímeros formados! Assim, o objetivo deste artigo é apresentar algumas características importantes a serem observadas no momento da escolha de um fotoativador e como escolher o melhor aparelho para a realidade clínica de cada um.


1.Tipo de ponteira ideal

Provavelmente, você já se deparou com aparelhos fotoativadores com diferentes tipos de ponteiras transmissoras de luz. Você sabia que essa ponteira pode fazer bastante diferença na no alcance da luz até restauração? Para facilitar o entendimento dividiremos as ponteiras em dois tipos: ponteiras transmissoras indiretas e ponteiras transmissoras diretas.

As ponteiras transmissoras indiretas são as ponteiras longas no qual o LED está dentro do corpo do aparelho fotoativador e a luz emitida pelo LED deve ser conduzida até a extremidade (Figura 1).

Figura 1. Exemplo de fotoativador que utiliza ponteira indireta em fibra de vidro.

Há ponteiras transmissoras indiretas confeccionadas em diferentes materiais como acrílico, fibra de vidro não selada (quando não tem uma capa protetora de cor preta ao seu redor), fibra de vidro selada (quando é revestida por uma capa de cor preta, como exemplificado na Figura 1).

As ponteiras de transmissão indireta devem apresentar uniformidade na sua composição, não apresentando defeitos como bolhas, falhas internas decorrentes do processo de fabricação, trincas ou sujeiras na sua superfície externa já que todos esses fatores podem reduzir a luz transmitida pela ponteira. Quando são fabricadas em acrílico, esse sofre danos com facilidade e perde luz ao longo do corpo da ponteira devido a não existência de capa protetora. Além disso, o acrílico, diferente da fibra de vidro, não apresenta coerência na transmissão (a luz não passa de maneira “limpa” pela ponteira), ocorrendo perda de intensidade luminosa mesmo quando são novas. De forma geral, as ponteiras de fibra de vidro apresentam maior coerência na transmissão (Figura 2) e menor perda quando comparada com as acrílicas.

Figura 2. Quando há uniformidade no corpo da ponteira, como acontece com as de fibra de vidro, é possível enxergar através da ponteira o que está escrito sobre uma superfície, isto indica que a transmissão de luz será coerente em relação ao que for captado do LED.

Se possível, no caso de ponteiras de transmissão indireta, opte pelas de fibra de vidro seladas, ou seja, apresentam capa protetora que impede que sujeiras possam atrapalhar o processo de transmissão da luz além de menor perda de intensidade ao longo do corpo da ponteira.

Já nas ponteiras de transmissão direta, o material desta ponteira fará toda diferença. As que são de plástico podem apresentar perda de intensidade luminosa já que o plástico muitas vezes é fosco e atrapalha a passagem de luz. Além disso, as de plástico podem sofrer arranhões ou grudar sujeiras com mais facilidade o que pode prejudicar ainda mais a transmissão. Portanto, caso escolha fotoativadores com este tipo de ponteira, é preciso manter essas ponteiras extremamente limpas, bem cuidadas e realizar a substituição da mesma com frequência. Já quando essas ponteiras são de vidro, menor quantidade de sujeiras acumulam e a transmissão de luz é mais coerente.


Figura 3. Exemplo de aparelho que utiliza uma ponteira de transmissão de luz direta.


2. Intensidade de luz ou Irradiância:

Um conceito importante quando se fala em fotoativação e, frequentemente, confundido é a relação entre irradiância, potência e dose de energia necessária para polimerizar um compósito de base resinosa. Quando falamos em potência, estamos nos referindo a potência do LED do fotoativador, mensurada em mW, e independe da área da ponta transmissora do aparelho. A irradiância é a potência do LED dividida pela área de saída da ponta do fotoativador sendo mensurada em mW/cm2. Já a dose de energia, um dos conceito mais importante para entendermos o processo de fotoativação, é a relação entre tempo de exposição multiplicado pela irradiância. Para conseguir uma adequada polimerização de um incremento de 2 mm resina composta, esta deve receber aproximadamente 16.000 milijoules/cm2 (16 J/cm2) de dose de energia. Se o fotoativador emite 1000 mw/cm2 irradiância e considerando a distância existente entre a ponta ativa do fotoativador e o incremento de resina suponhamos que 400 mW/cm2 alcance o compósito, então para conseguir adequada fotoativação seria necessário 40 segundos de tempo de exposição (40 segundos x 400 mw/cm2= 16.000 milijoules/cm2). Em resumo, fazendo esse cálculo, o profissional poderá conseguir uma melhor polimerização dos incrementos mesmo em tempos curtos (se o aparelho fotoativador for de alta irradiância), contudo sem se esquecer dos problemas da contração de polimerização com tempos de ativação muito curtos em alta intensidade (Rueggeberg FA, 2011).

Figura 4. Imagem ilustrativa da dispersão da luz de um aparelho fotoativador.


Outra questão de relevância é a área da ponta ativa. Quanto menor for a área da ponta ativa maior será a intensidade emitida pelo fotoativador. Frequentemente, encontramos fotoativadores com área da ponta ativa reduzida (inferior a 1 mm2). Estes fotoativadores podem emitir altíssima intensidade luminosa, contudo, como a luz está concentrada em uma pequena área, será necessário fotoativar várias regiões em uma mesma face para se conseguir um adequado grau de conversão (Shortall AC et al, 2016; Price RB et al. 2015).


Figura 5. Tamanho das pontas dos aparelhos fotoativadores em relação ao tamanho do dente.


3. Escolher um fotoativador portátil (bateria) ou com fio?

O tipo de conexão com a energia, com ou sem fio, é outra característica importante que o profissional deve considerar no momento de comprar o aparelho fotoativador. Apesar da praticidade e modernidade que os aparelhos sem fio trouxeram para a rotina clínica, a intensidade do LED é dependente da quantidade de energia disponível na bateria. Ou seja, durante um longo dia de trabalho, a irradiância é reduzida de acordo com a quantidade de ciclos fotoativadores (Pereira AG et al, 2016). Isto significa que caso o aparelho não seja recarregado, a qualidade de procedimentos clínicos que envolvam a polimerização (restauração direta em resina composta, cimentação de facetas/coroas/pinas de fibra de vidro, aplicação de adesivos, entre outros) será inferior, pois está interfere negativamente nas propriedades mecânicas e químicas da compósito resinoso. Sendo assim, ao se utilizar o aparelho fotoativador sem fio e o procedimento for concluído, é sugerido voltar para a base que recarrega o aparelho. Lugar de aparelho fotoativador que não esta em uso é na base recarregadora!


4. Como comprimento de onda emitido pelo aparelho influencia na prática clínica?

Há muito tempo, na prática odontológica a canforoquinona é o principal fotoiniciador. Consequentemente, os aparelhos fotoativadores são fabricados com LEDs que emitem comprimentos de ondas capazes de sensibilizar a canforoquinona (entre 400 nm e 500 nm com pico de absorção em 468 nm). Contudo, a canforquinona é uma substância de cor amarela intensa e dependendo das quantidades presentes pode levar o compósito a ter uma coloração amarelada (Figura 6), inclusive influenciando na estabilidade da cor a longo prazo (Ilie N & Hickel R, 2008). Por isso, alguns fabricantes tem apostado em cimentos ou resinas compostas nos quais a canforoquinona é parcialmente ou totalmente substituída por outros fotoiniciadores.

Figura 6. Repare a cor amarelo intensa da Canforoquinona comparada aos outros dois fotoiniciadores, BAPO e TPO, usados em alguns materiais resinosos. Foto gentilmente cedida pelo Prof. Dr. Luis Felipe Schneider (Obrigado Felipe!).


E é aí que está o problema... a grande maioria dos aparelhos fotoativadores não emitem luzes em comprimento de onda capaz de sensibilizar outros fotoiniciadores (Emami N & Soderholm KJ, 2003). Portanto, consulte o fabricante do cimento e resinas que você utiliza quanto a existência de fotoiniciadores diferentes da canforoquinona. Se houver a presença deles, será necessário investir um pouco mais e adquirir um fotoativador que apresente uma faixa de comprimento de onda mais ampla. Dois exemplos bastante conhecidos deste tipo de aparelho fotoativador são o Valo (Ultradent) e Blue Phase (Ivoclar Vivadent).

Espero que este artigo o ajude a esclarecer as principais dúvidas sobre fotoativação e aparelhos fotoativadores. Lembre-se: o sucesso clínico das restaurações adesivas vai além da escolha de bons materiais! É preciso conhecer os princípios básicos de polimerização por luz para escolher os melhores aparelhos e utiliza-los corretamente!

Um abraço,

Bruno R Reis

Professor da Universidade Federal de Uberlândia - ESTES/UFU

Especialista em Dentística e Radiologia Odontológica

Mestre em Clínica Odontológica

Doutor em Biologia Oral e Biomaterias


Referências

Price RB, Ferracane JL, Shortall AC. Light-Curing Units: A Review of What We Need to Know. J Dent Res. 2015 Sep;94(9):1179-86.

Shortall AC, Price RB, MacKenzie L, Burke FJ. Guidelines for the selection, use, and maintenance of LED light-curing units - Part 1. Br Dent J. 2016 Oct 21;221(8):453-460.

Rueggeberg FA. State-of-the-art: dental photocuring--a review. Dental materials : official publication of the Academy of Dental Materials 2011;27:39-52.

Emami N, Soderholm KJ. How light irradiance and curing time affect monomer conversion in light-cured resin composites. European journal of oral sciences 2003;111:536-42.

Ilie N, Hickel R. Can CQ be completely replaced by alternative initiators in dental adhesives? Dental materials journal 2008;27:221-8.

Pereira AG, Raposo L, Teixeira D, Gonzaga R, Cardoso IO, Soares CJ, Soares PV. Influence of Battery Level of a Cordless LED Unit on the Properties of a Nanofilled Composite Resin. Oper Dent. 2016 Jul-Aug;41(4):409-16.

Prof. Dr. Bruno R Reis

Professor da Universidade Federal de Uberlândia - ESTES/UFU

Especialista em Dentística e Radiologia Odontológica

Mestre em Clínica Odontológica

Doutor em Biologia Oral e Biomaterias

Meu propósito é te ajudar a ter autonomia por meio do conhecimento, descomplicando a odontologia e a comunicação. E como faço isso?

Eu me coloco no seu lugar, identifico o que está te impedindo de ser feliz nos seus resultados e "desato os nós" por meio de uma linguagem simples e acessível! Sou formada pela UNESP | Araçatuba; Mestre e Doutora em Dentística pela UNESP | Araraquara e Professora de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas | RS.

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