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Biomimetismo com Resinas e Cerâmicas

Biomimetismo com Resinas e Cerâmicas

O conceito de biomimetismo na Odontologia é bem mais amplo que a associação que normalmente fazemos: restaurações imperceptíveis aos olhos humanos. Quem cunhou este termo - Pascal Magne, em seu livro Bonded Porcelain Restorations in the Anterior Dentition, Quintessence, 20021 - foi muito mais além. Trabalhar sob a filosofia do biomimetismo significa empregar técnicas conservadoras, e materiais restauradores com propriedades ópticas e mecânicas semelhantes a estrutura dental. É um conceito baseado na união da arte e ciência, ou seja, na utilização de materiais que imitam os dentes naturais, não somente em aparência, mas também em função e resistência. Como resultado, as restaurações são imperceptíveis, ou muito parecidas com os dentes naturais, exigem baixa manutenção e possuem alta longevidade. 

As restaurações de amálgama estão fora deste contexto, não somente por causa da estética, mas também devido as propriedades mecânicas deste material. É muito comum recebermos em nosso consultório pacientes com restaurações de amálgama em dentes posteriores que resistiram por décadas e repentinamente sucumbem levando junto uma parte do dente (Figura 01). A razão para isto pode estar no fato de que o amálgama quase não se deforma (menos de 10% de deformação máxima), possui alta rigidez (módulo de elasticidade próximo de 1500 MPa)2,3 e não tem adesão às estruturas dentárias. Consequentemente, estresse é transmitido para o esmalte e dentina, e deste modo provoca trincas nos tecidos (Figura 02), enfraquecendo os dentes e possivelmente levando-os à fratura.

A resina composta é mais amiga do dente! Mais flexível, com maior deformação2,3 e com adesão aos tecidos dentais, este material restaurador acompanha os esforços mastigatórios. Isto é fundamental nos dentes posteriores, mais requisitados na função oclusal.  A troca do amálgama por resina protege o dente por que este material restaurador tem propriedades mecânicas que favorecem a dissipação de forças, minimizando o estresse, que pode levar a uma fratura dental. É por isso, não somente pela estética, que fazemos a substituição das restaurações de amálgama por resina composta (Figura 03). Adicionalmente, as resinas compostas têm demonstrado ser um material restaurador de alta longevidade. Artigos clínicos, publicados recentemente em periódicos de alto fator de impacto, avaliaram o comportamento de centenas de restaurações de resina composta em dentes posteriores  (classe I e classe II) com ótima perfomance clínica após 224 ou 27 anos5.

Nos dentes anteriores, onde a estética é de extrema importância, as resinas compostas podem não ser a melhor opção. Apesar de serem duráveis, as resinas mudam de cor, absorvem pigmentos advindos da dieta, tem baixa resistência ao desgaste, perdem a textura e o brilho. Além disso, as restaurações com compósitos em dentes anteriores podem ser de difícil reprodução e manutenção da estética a longo prazo (Figura 04).

Os laminados cerâmicos sem partículas de reforço e o esmalte dental têm propriedades mecânicas semelhantes. O esmalte é pouco mais resistente à compressão e se deforma mais facilmente que as cerâmicas2,3. No entanto, as cerâmicas são mais rígidas e duras que o esmalte dental. Por isso, devemos estimular o uso de placas noturnas em pacientes que fazem bruxismo, para proteger os dentes antagonistas do desgate acentuado e também os próprios laminados cerâmicos de possíveis fraturas. Para se conseguir estética com baixa manutenção e longevidade devemos optar por cerâmicas de vidro coláveis, e a colagem (cimentação) deve ser feita sobre esmalte (Figuras 5 a 7). Um estudo clínico recentemente publicado na literatura concluiu que facetas de cerâmica coladas ao esmalte obtiveram uma taxa de sobrevivência de 96% em 21 anos6

Deste modo, na medida do possível, do bom senso, da exigência estética, dos recursos financeiros do paciente, e da limitação (indicação) dos materiais restauradores, devemos optar pelo uso de resinas compostas em dentes posteriores e cerâmicas em dentes anteriores. Para uma maior longevidade, os preparos devem ser minimamente invasivos, as restaurações adesivas, e os materiais restauradores semelhantes óptica e mecanicamente às estruturas dentais as quais irão substituir. Sendo assim, cerâmicas de vidro para substituição do esmalte e resinas compostas no lugar da dentina. Devido à contração de polimerização, grandes restaurações diretas de resina composta em elementos posteriores podem enfraquecer os dentes, envés de reforçar-los7. Neste caso, opte por restaurações indiretas com resinas compostas originalmente indicadas para uso direto, que podem ser feitas por você mesmo8,9. Mas, este é um assunto para outro artigo!

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Um abraço a todos e obrigado pela leitura! 

Referências

1. Magne e Belser. Bonded Porcelain Restorations in the Anterior Dentition: A Biomimetic Approach. Quintessence, Alemanha, 2002.

2. Chun e Lee. Comparative study of mechanical properties of dental restorative materials and dental hard tissues in compressive loads. Journal of Dental Biomechanics (2014) vol. 5 (0) pp. 1-6.

3. Chun et al. Comparison of mechanical property and role between enamel and dentin in the human teeth. Journal of Dental Biomechanics (2014) vol. 5 (0) pp. 1-7.

4. Rodolpho et al. 22-Year clinical evaluation of the performance of two posterior composites with different filler characteristics. Dental Materials (2011) vol. 27 (10) pp. 955-963.

5. Pallesen and Dijken. A randomized controlled 27 years follow up of three resin composites in Class II restorations.  (2015) pp. 1-12.

6. Layton e Walton. The up to 21-year clinical outcome and survival of feldspathic porcelain veneers: accounting for clustering. Int J Prosthodont (2012) vol. 25 (6) pp. 604-12.

7. Batalha-Silva et al. Fatigue resistance and crack propensity of large MOD composite resin restorations: direct versus CAD/CAM inlays. Dental materials : official publication of the Academy of Dental Materials (2013) vol. 29 (3) pp. 324-31.

8. Malta et al. Bond strength and monomer conversion of indirect composite resin restorations, Part 1: Light vs heat polymerization. J Adhes Dent (2014) vol. 16 (6) pp. 517-22.

9. Magne et al. Heat Treatment Influences Monomer Conversion and Bond Strength of Indirect Composite Resin Restorations. J Adhes Dent (2015) vol. 17 (6) pp. 559-66.

Meu propósito é te ajudar a ter autonomia por meio do conhecimento, descomplicando a odontologia e a comunicação. E como faço isso?

Eu me coloco no seu lugar, identifico o que está te impedindo de ser feliz nos seus resultados e "desato os nós" por meio de uma linguagem simples e acessível! Sou formada pela UNESP | Araçatuba; Mestre e Doutora em Dentística pela UNESP | Araraquara e Professora de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas | RS.

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